O que o fracasso de Cats me ensinou sobre criatividade

Ah, Cats. O que dizer sobre Cats?

Se você viveu em 2019, você provavelmente esbarrou com o desespero coletivo em torno da adaptação para cinema de Cats. Ainda que sem ter visto o filme, meu réveillon de 2019 para 2020 se resumiu em ver cada resenha negativa da crítica (especializada ou não) que eu conseguia. Se, no entanto, você pouco estava se lixando para um filme estranho com efeitos especiais bizarros e mais ainda para um espetáculo estranho com gente bizarra vestida de gato, eu vou explicar melhor por que qual o lançamento do filme me deixou tão obcecada.

Obviamente, críticas negativas são diversão sem fim para aqueles que, como eu, se divertem com o sofrimento alheio, principalmente se o filme é realmente ruim. Mas minha obsessão ultrapassou a barreira do meme que nasce e morre em uma semana e aqui estou eu. Ainda obcecada.

Vamos lá.


Mas afinal, o que diabos é Cats?

Cats é a história de uma tribo de gatos vira-latas auto-denominada “Jellicles”, e que anualmente realizam uma competição conduzida pelo patriarca deles, Old Deutoronomy. Esse gato premia, então, o seu escolhido para ganhar uma nova vida em um lugar chamado “Heavyside Layer” (que é, bem, o paraíso?). Assim, para ganhar essa oportunidade, os gatos apresentam cenas musicais para mostrar para o líder quem são, quais papéis ocupam naquela sociedade e o motivo pelo qual deveriam ser escolhidos para Heavyside Layer.

Ou seja, são 2 horas completas de personagens cantando sobre si mesmos e competindo por uma vaga no céu dos gatos.

E então você me diz “É claro, uma coisa louca dessas só pode dar errado. Quem veria 2 horas de gatos humanoides cantando e dançando? Só gente que gosta muito de gatos! Ou talvez furries…”. Eu estaria tendenciosa a dizer que sim, caro leitor, é provável que qualquer tentativa de contar essa história tão pouco estruturada estaria fadada ao fracasso. Mas não. Não estou falando do filme de Cats. Estou falando de um dos mais icônicos musicais da Broadway, um dos espetáculos que por mais tempo permaneceram em cartaz nesse reduto do teatro musical. É isso mesmo. Um sucesso arrebatador.

Assim, sabendo que o filme de 2019 foi um fiasco, comecei a pesquisar mais sobre a empreitada para levar o musical para as telonas. Por que um deu certo e outro não? Foi aí que encontrei a versão de 1998 da filmagem do musical gravado no teatro e, posso dizer com toda sinceridade.

Ele é charmoso.

É vibrante.

É absolutamente estranho.

Mas é adorável.

Eu gostei.

Sim, senhores. Posso afirmar com peso no coração que estou me tornando o que mais temia: uma pessoa que gosta de musicais.

E então vem o filme.

O filme chegou em 2019 com um elenco que incluía Jennifer Hudson, Judy Dench, Ian McKellen, Taylor Swift, entre outras estrelas do cinema. A direção era de Tom Hooper, premiado pelo Oscar (desastrosamente premiado, dizem). Além do mais, uma nova trilha foi composta exclusivamente para o filme foi criada pelo próprio compositor do musical, Andrew Lloyd Weber (assinada também por Taylor Swift). E houve também um fato que me deixou surpresa: também contou com a produção da Amblin Entertainment, com Steven Spielberg como produtor executivo. O quê poderia dar errado?

Aparentemente, tudo.

Por que o musical Cats é um sucesso (e o filme, um erro terrível)

O musical assume riscos. O filme, não.

Deixe-me dizer uma coisa:

Se o musical Cats fosse uma tragédia em sua primeira temporada em 1980, Andrew Lloyd Weber seria um homem com uma mão na frente e outra atrás.

Em sua primeira produção sem seu colaborador Tim Rice (que desenvolveu com ele Jesus Cristo Superstar e Evita) muitos acharam que Lloyd Webber poderia estar louco e/ou se metendo em uma enrascada. Se a premissa hoje ainda parece improvável, é porque ela realmente é. Dessa maneira, para levantar o dinheiro para realizar o espetáculo, ele fez uma segunda hipoteca em sua casa, tomou alguns empréstimos e pediu dinheiro para pessoas através de anúncios no jornal. E essa é só uma parte da história.

“Parecia uma receita para o desastre.”

– o próprio Andrew Lloyd Webber, em 1998, sobre o musical.

Cats é uma adaptação do livro favorito da infância de Andrew Lloyd Webber, “Old Possum’s Book of Practical Cats”, de T.S Eliot, uma coletânea de poemas sobre o comportamento e a psicologia dos gatos feita como um presente para os sobrinhos do escritor. Como resultado, há um poema, para o hábito dos gatos de serem caóticos em sua liberdade, outro sobre gatos de rotina noturna e também um sobre a capacidade “mágica” de gatos surgirem e desaparecerem. Assim, tendo por base esses poemas infantis sem conexão narrativa entre si, o desafio de criar uma peça para Cats era significativo.

Cats e um homem insano
Eis Andrew Lloyd Weber totalmente confiante explicando o que são gatos “Jellicle”: “Gatos são gatos ‘Jellicle’.”

Testar, testar e testar

Através da união de mentes criativas, como a coreógrafa Gillian Lynne e o designer de set e de figurino John Napier, uma voz única, um processo inusitado e muito trabalho duro, o espetáculo foi construído através de uma espécie de “caos organizado”. Em um amálgama do que funcionava quando testado pela equipe, liberdade para o improviso, música, dança e interpretação deram forma ao que hoje é o musical. Houve atrasos, substituições e muitas reelaborações até chegar ao resultado final, um sucesso surpreendente que perdura até hoje.

Mas o filme de Cats…

O filme se sustenta no sucesso do musical e faz poucas decisões criativas originais para a tela. Se por um lado ele foi muito fiel à ideia geral do musical, por outro lado ele foi muito fiel à ideia geral do musical. Ao não conseguir captar a essência dele e da inventividade que foi a base para o sucesso de Cats, o filme faz poucas tentativas de achar sua voz única e, por consequência, acaba sendo em grande parte esquecível.

Dessa maneira, sua perspectiva pessoal e única, arriscando sair do óbvio, é necessária para criar narrativas instigantes, seja qual for a mídia em que você trabalhe. Não é necessário hipotecar sua casa pelo seu trabalho, mas é um indicativo o fato de que aquelas pessoas que investiram no musical através de um anúncio de jornal recuperaram seu investimento na taxa de 3.500%.

A Universal Filmes levou um prejuízo de cerca de 100 milhões de dólares.

Isso deve significar alguma coisa.

Adaptações exigem mudanças. Que façam sentido.

Não considero que os efeitos de computação gráfica foram o fator definitivo para a morte prematura de Cats (apesar de ter sido talvez a primeira pá de terra sobre esse caixão). Assisti ao filme antes de fazer essa publicação e, sinto dizer, o grande problema é que Cats é um filme ruim mesmo que a computação gráfica tivesse seu tempo adequado de maturação ou fosse sabiamente trocada por figurino e maquiagem na ausência do tempo e orçamento necessário para o filme. Assim, ele é um filme que não é bom nem sequer em ser ruim e não é, como seus detratores indicam, um horror lovecraftiano (se fosse, ao menos teria sido mais divertido).

Há vários fatores que contribuem para essa conclusão, mas acredito que seguir a estrutura do musical (que é por si só bem pequena) tenha sido um dos grande motivos pelos quais a história não é cativante para o espectador de cinema. Ainda que tenha tentado criar um vilão e um sub-enredo que envolvia o gato Macavity, que é uma espécie de super-vilão à la Sherlock Holmes, sequestrando os outros participantes da competição, ele não é suficiente para dar conta de duas horas de introdução de personagens que aparentemente não exercem qualquer papel na trama.

(Se o objetivo dos números musicais é servirem como entradas na competição para persuadir a matriarca da tribo, por que os primeiros gatos estão cantando quando ela não está presente? Por que a protagonista parece não estar sofrendo de forma alguma após ter sido abandonada na rua por seus donos? Por que a gata triste sofre tanto? São tantas perguntas.)

Adaptações questionáveis

Além disso, quando as mudanças vêm, elas são de um gosto minimamente questionável. Os maiores exemplos são talvez os mais criticados: a gata filantropa Jennyanydots (Rebel Wilson) e o gato aristocrata Bustopher Jones.

Se na peça a primeira é uma gata que dorme de dia, mas é extremamente ativa pela noite exercendo o papel tratar dos problemas dos ratos e das baratas, no filme ela é retratada apenas como uma gata preguiçosa com o hábito perturbador de comer as baratas que ajuda. E gorda. Mais gorda que qualquer outra coisa. Enquanto o Bustopher Jones do espetáculo é o aristocrata admirado (apesar de também “notavelmente gordo”) por sua sociedade como um sinal da fartura por ter uma família para lhe sustentar – ao contrário da maioria dos gatos do lixão – na produção de Tom Hooper ele é, vejam só, o gato gordo. Desse modo, é de se surpreender que o material-base tenha tido essa leitura em 2019, quando as discussões sobre a representação de corpos gordos na mídia avançaram tanto. Mas não é tão surpreendente assim que a película tenha gerado a repercussão que gerou.

Não digo isso para alegar que o musical seja uma obra-prima. Através do parco conhecimento que tenho sobre a área, me parece que Cats é um musical bastante criticado no ramo e de fato absurdo pela sua premissa, mas é inegável que seus elementos foram trabalhados de uma forma funcional e com um apelo popular o suficiente para ser levado aos cinemas (ainda que sem sucesso). Algo deu muito certo no musical.

Ajustando a comunicação

Na área de estudo de Teorias da Comunicação, somos logo ensinados por Marshall McLuhan que “O meio é a mensagem”, ou seja, cada canal de comunicação tem uma forma específica própria para passar uma mensagem. Assim sendo, o que você diz e como você diz no rádio não é o que você diz e como você diz em um podcast no Spotify, mesmo que pareçam intrinsecamente relacionados. Se cada plataforma é específica, transplantar histórias de uma para a outra sem as devidas adaptações pode causar uma rejeição fatal para todos os envolvidos. Cats funciona nos palcos devido à aproximação literal que o público tem com a peça, gatos cheios de vitalidade, executando acrobacias físicas e vocais.

Em uma pesquisa que fiz antes de escrever esse texto, havia um relato de um suposto espectador em um vídeo no YouTube descrevendo sua experiência. Parece que, em algumas produções, você podia subir no palco e conhecer os personagens durante o intervalo, vendo-se cercado pelo cenário da peça: um lixão recriado em uma escala muito maior do que os atores e cheios de pequenos detalhes de uma produção engajada.

Esse tipo de aproximação não é possível levar para o cinema, pois os acordos entre o espectador do cinema e o filme são diferentes dos acordos entre a plateia e os atores do teatro. Sabe quando uma piada boba é muito engraçada quando você ouve um amigo contar durante o cafezinho no trabalho, mas na TV a mesma piada parece um pouco, hmmm, não muito engraçado? É mais ou menos isso.

Um problema da adaptação teatro-cinema

Há um tipo específico de afastamento da produção cinematográfica que nos torna mais céticos quando estamos vendo uma. Depois de tanto absorvermos conteúdo audiovisual nessas últimas duas décadas, estamos muito vacinados em relação aos funcionamento de enredos e produções. Somos espectadores mais difíceis, percebemos as reviravoltas com mais facilidade, não nos impressionamos com efeitos especiais desde Avatar e definitivamente somos os primeiros a perceber furos óbvios na estrutura do enredo. Se não nós mesmos, rapidamente vamos encontrar alguém no Twitter que vai perceber. Não dá mais para tentar nos tapear com essa conversa de tecnologia inovadora de “pelos digitais”.

Como você espera que eu acredite nos movimentos de dança quando eu não consigo sequer acreditar no rosto dos seus personagens?

Não me venha com essa.

Tenha consistência. O mínimo.

Isso nos leva ao último ponto, talvez o único que tenha me deixado de fato um pouco perturbada.

Se você cria algo, é importante que ele tenha alguma consistência no universo de seu público, que seja verossímil, se pareça com a verdade. Mas não estou dizendo que as coisas tenham de se basear no que é possível, muito pelo contrário!

Parecer verdade sem ser verdade

Se me dizem que aos dez anos um menino descobriu ser bruxo e foi para uma escola de magia secreta, posso acreditar completamente, assim como acredito em Harry Potter. Isso porque, nesse mundo, há uma série de regras que dão base a ele e não se alteram (há bruxos, não-bruxos e mestiços nele; Expelliarmus sempre vai desarmar seu inimigo e os castigos das antigas eram muito melhores, sem dúvidas), assim, eu tenho certeza de que posso imaginar esse mundo com muitos detalhes.

Mas quando você me apresenta uma sociedade de gatos humanoides em que

  • Ora os gatos são muito menores do que gatos de verdade, ora são gatos de tamanho normal;
  • alguns deles vestem roupas, outros não (inclusive, um deles aparece com roupas na metade do filme e sem na outra metade) e
  • a velocidade dos cortes me faz ficar um pouco perdida e levemente agitada, sem de fato conseguir apreciar a dança ou a música.

acho que não é um mundo que consigo imaginar facilmente. Se a computação gráfica ruim ainda é um grande problema, criar uma lógica plausível me parece uma falha muito mais patente.

Se a ideia fosse transformar Cats em um terror estilo “O Iluminado”, com cenários propositalmente fora de escala e espacialmente confusos, a proposta poderia funcionar, mas, infelizmente, não foi o caso.

Uma outra possibilidade

Cerca de uma década depois de sua estreia, nos anos 90, produzir uma adaptação de Cats era algo muito viável, pois o musical já era um hit no West End e na Broadway.

E então entra em cena Steven Spielberg. Se uma animação de Cats parecia algo terrivelmente adequado para um novo sucesso comercial, Spielberg e sua empresa, a já citada Amblin Entertainment, contava então com vários sucessos e já tinha uma divisão para animação, a Amblimation, o que parecia unir o útil ao agradável.

Diz o próprio Lloyd Webber que, décadas antes do musical, T.S. Eliot havia sido abordado pela Disney para uma adaptação de seu livro. O autor recusou a investida por temer que sua obra fosse transformada em algo muito infantil e essa é uma perspectiva que Lloyd Webber parece compartilhar. Sob essa luz, uma parceria com Spielberg soa adequadíssima, pois sempre criou obras com apelo para jovem sem retirar as nuances direcionadas a adultos.

Arte conceitual de Cats
Artes conceituais desenvolvidas para a Amblimation por Luc Desmarchelier
Arte conceitual de Cats

Logo após o sucesso de uma “Cilada para Roger Rabbit” em 1988, a adaptação começou a ser concebida sob bons presságios. Incluindo veteranos da animação e conversas constantes entre a equipe da Amblimation e da produção do musical Cats. Pesquisas de ambientação começaram a serem feitas, produtores da Amblimation frequentaram as montagens do musical no West End, materiais conceituais foram desenvolvidos e a ideia geral parecia muito promissora. A Londres bombardeada na Segunda Guerra Mundial seria o cenário, muito inspirado no expressionismo alemão, e sets filmados seriam misturados com animação tradicional em um estilo muito parecido com Roger Rabbit.

Entretanto…

Duas visões diametralmente opostas sobre Cats

A produção da animação percebeu rapidamente que a estrutura do musical seria inviável para uma narrativa no cinema (exato!). Logo, os problemas começaram a se desenvolver. Aparentemente, a equipe de Spielberg gostaria de fazer uma narrativa mais tradicional em vez de transportar para a tela os números musicais de personagens. Por outro lado, Lloyd Webber acreditava que o caminho era algo mais parecido com o que ele mesmo havia elaborado para o musical.

Segundo Tom Pollock, presidente da Universal Picture na época, “Tanto Steven quanto Andrew obviamente têm um senso muito forte do que o público gostaria de assistir”. É possível chegar a conclusão de que talvez as visões de ambos eram muito divergentes para continuarem a trabalhar juntos.

Diante disso, ela foi obrigada a direcionar sua atenção para outros projetos e lançar um fracasso de bilheteria (era o terceiro fracasso consecutivo), a Amblimation foi fechada. A equipe se dispersou e o filme animado de Cats nunca viu a luz do dia, o que me deixa um tanto infeliz; a ideia parecia ter muito potencial.

Um retorno nem tão triunfal assim

Por volta de 2013, boatos surgiram de que Lloyd Webber e a Amblimation de Steven Spielberg começaram a pensar novamente no projeto. Dessa vez, descobrimos ser um live action sob a direção de Tom Hooper. Dessa vez, o resultado todos nós conhecemos bem.

Não sei detalhes aprofundados sobre a produção do filme, mas veja. Nessa perspectiva, não seria irônico que o filme tenha falhado justamente por influência de uma das pessoas responsáveis por seu sucesso em outro momento? Teria a insistência de mantar o filme semelhante ao musical vindo de Andrew Lloyd Webber? Às vezes você ganha, às vezes você perde.

Para saber mais sobre a história dessa outra adaptação, acessem a matéria completa do Cartoon Brew. Algumas das lindas artes conceituais podem ser encontradas no blog de Luc Desmarchelier.

Em resumo, o que aprendi com Cats

  1. Assuma riscos
  2. Tenha uma visão única e não tenha medo de segui-la
  3. O processo criativo caótico pode gerar boas ideias quando se trabalha em grupo
  4. Quando trabalhar com material para adaptação, não tenha medo de inserir mudanças para transmitir melhor a mensagem
  5. Tenha consistência
  6. Coragem e olhos abertos para a mudança. Repetir uma fórmula que deu certo pode não funcionar em outro contexto.

Em breve mais textos! Para saber mais sobre nossas reflexões sobre arte, acesse a catergoria arte & cotidiano. Se você quer ficar ligado especificamente nos filmes, favorite a categoria filmes e nos visite quinzenalmente para mais atualizações!

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